{"id":69,"date":"2026-08-03T17:07:44","date_gmt":"2026-08-03T17:07:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agoracritica.pt\/?p=69"},"modified":"2026-08-05T13:15:56","modified_gmt":"2026-08-05T13:15:56","slug":"odisseia-homero-traducao-de-frederico-lourenco-quetzal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agoracritica.pt\/?p=69","title":{"rendered":"Odisseia \u2014 Homero (Tradu\u00e7\u00e3o de Frederico Louren\u00e7o, Quetzal)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <em>Odisseia<\/em> \u00e9 o poema do regresso, mas n\u00e3o apenas o regresso a uma casa f\u00edsica: \u00e9 o regresso ao centro do ser, ao lugar onde o homem finalmente se encontra consigo pr\u00f3prio depois de atravessar todas as sombras que o afastaram de si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Odisseu n\u00e3o come\u00e7a este poema como her\u00f3i, mas como algu\u00e9m cheio de defeitos \u2014 ast\u00facia usada para proveito pr\u00f3prio, orgulho inflamado, vaidade que o cega, impulsos que o desviam do caminho \u2014 e \u00e9 por isso que a sua viagem n\u00e3o \u00e9 apenas geogr\u00e1fica, mas alqu\u00edmica: cada ilha, cada monstro, cada desvio \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o que o despede de um defeito, como se Homero tivesse escrito um mapa espiritual disfar\u00e7ado de aventura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Telemaquia: O Nascimento da Coragem<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas antes de Odisseu entrar em cena, o poema abre com a <em>Telemaquia<\/em>, esse conjunto de cantos onde acompanhamos Tel\u00e9maco, o filho que cresceu sem pai, rodeado por pretendentes que devoram a casa, o vinho, os animais, a honra e a paz de \u00cdtaca. Tel\u00e9maco vive num mundo suspenso, onde todos acreditam que Odisseu morreu, e onde Pen\u00e9lope, para n\u00e3o ser obrigada a escolher um novo marido, tece durante o dia e desfaz \u00e0 noite, adiando o inevit\u00e1vel com a intelig\u00eancia silenciosa das mulheres que sabem que o tempo tamb\u00e9m \u00e9 arma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 ent\u00e3o que surge Atena, disfar\u00e7ada, como sempre, a mover os fios invis\u00edveis do destino. Ela procura Tel\u00e9maco, fala-lhe ao ouvido, empurra-o para a viagem que ele n\u00e3o ousava iniciar, dizendo-lhe que deve partir, procurar not\u00edcias do pai, enfrentar o mundo e tornar-se homem.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Telemaquia \u00e9 o nascimento da coragem: \u00e9 o momento em que o filho aprende a caminhar antes de o pai regressar.<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00f3 depois, quase a meio do poema, surge Odisseu \u2014 n\u00e3o como her\u00f3i triunfante, mas como n\u00e1ufrago, como sobrevivente, como homem que perdeu tudo. A guerra de Troia terminou, todos regressaram a casa, menos ele e a sua tripula\u00e7\u00e3o. E \u00e9 aqui que come\u00e7a a verdadeira Odisseia: n\u00e3o a viagem para \u00cdtaca, mas a viagem para dentro de si.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Mapa da Ess\u00eancia Humana: Epis\u00f3dios e S\u00edmbolos<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Na terra dos Lot\u00f3fagos:<\/strong> os seus homens comem a flor que os faz esquecer quem s\u00e3o, e Odisseu tem de os arrastar de volta ao navio, como n\u00f3s \u00e0s vezes temos de nos arrastar para fora da apatia, da procrastina\u00e7\u00e3o, do esquecimento da nossa ess\u00eancia. A flor de l\u00f3tus \u00e9 o s\u00edmbolo da tenta\u00e7\u00e3o de desistir de n\u00f3s \u2014 e Odisseu recusa esse esquecimento.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>O gigante Polifemo:<\/strong> Odisseu s\u00f3 escapa porque diz que o seu nome \u00e9 \u201cNingu\u00e9m\u201d. \u00c9 o momento em que abandona o ego, o orgulho que o cegava, e percebe que a sobreviv\u00eancia exige humildade. A humildade salva-o. \u00c9 sempre a humildade que salva.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>A deusa Calipso:<\/strong> Odisseu fica preso durante anos numa ilha onde nada falta. Ela oferece-lhe a eternidade, a perfei\u00e7\u00e3o, a vida sem dor. E Odisseu recusa. Prefere ser mortal e regressar a Pen\u00e9lope, que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o perfeita nem t\u00e3o divina, mas \u00e9 humana \u2014 e \u00e9 isso que o encanta. Os deuses sempre invejaram os mortais porque a beleza do tempo finito d\u00e1 sentido ao desejo. Quem tem tudo deseja nada. E quem deseja nada deixa de viver.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>O epis\u00f3dio das Sereias:<\/strong> Odisseu faz aquilo que todos n\u00f3s temos de fazer quando a vida nos tenta com encantos vazios: amarra-se ao mastro. Agarra-se \u00e0 sua verticalidade, ao seu eixo interior, ao que acredita. As sereias s\u00e3o tudo o que nos seduz mas nos destr\u00f3i. O mastro \u00e9 aquilo que nos mant\u00e9m inteiros.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este epis\u00f3dio \u00e9, para mim, o mapa da ess\u00eancia humana: s\u00f3 chegamos a \u00cdtaca quando sabemos a que mastro nos amarramos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim segue, ilha ap\u00f3s ilha, monstro ap\u00f3s monstro, tenta\u00e7\u00e3o ap\u00f3s tenta\u00e7\u00e3o \u2014 at\u00e9 que perde tudo. Tripula\u00e7\u00e3o, armas, navio, roupa. Chega nu, apenas com um v\u00e9u para proteger o cora\u00e7\u00e3o. S\u00f3 quando perde tudo o que n\u00e3o \u00e9 essencial \u00e9 que finalmente regressa ao que \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Regresso e a Purifica\u00e7\u00e3o de \u00cdtaca<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando chega a \u00cdtaca, Atena disfar\u00e7a-o de idoso, de mendigo, de sombra. Ele entra na sua pr\u00f3pria casa como estrangeiro, observa os pretendentes que insultam a sua honra, que devoram o seu p\u00e3o, que tentam tomar o seu lugar. Pen\u00e9lope fala com ele sem saber quem \u00e9, e Odisseu, ainda disfar\u00e7ado, escuta a dor da mulher que esperou vinte anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ent\u00e3o chega o momento do arco: o arco que s\u00f3 ele consegue erguer, a seta que s\u00f3 ele consegue lan\u00e7ar, o gesto que revela quem ele \u00e9. Odisseu endireita-se, abandona o disfarce, e a casa inteira reconhece o homem que voltou. O que se segue n\u00e3o \u00e9 batalha, mas purifica\u00e7\u00e3o: uma chacina necess\u00e1ria, dura, simb\u00f3lica, onde Odisseu elimina tudo o que corrompeu \u00cdtaca, tudo o que tentou ocupar o seu lugar, tudo o que viveu da sua aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O reencontro com Pen\u00e9lope \u00e9 o momento mais humano do poema. Ela n\u00e3o acredita de imediato. Testa-o. Questiona-o. Observa-o. E s\u00f3 quando ele descreve o segredo do leito que construiu com as pr\u00f3prias m\u00e3os \u2014 o leito que n\u00e3o pode ser movido \u2014 Pen\u00e9lope reconhece o homem que esperou. Odisseu regressa, n\u00e3o como her\u00f3i, mas como homem que atravessou todas as sombras e voltou inteiro.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A M\u00fasica Antiga para o Leitor de Hoje<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tradu\u00e7\u00e3o de Frederico Louren\u00e7o, publicada pela Quetzal, devolve-nos a m\u00fasica do poema com uma clareza luminosa. Louren\u00e7o respeita a oralidade formulaica, a cad\u00eancia repetida que faz da <em>Odisseia<\/em> uma obra nascida para ser dita em voz alta. A sua tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 fiel ao esp\u00edrito antigo e ao leitor contempor\u00e2neo, criando uma ponte entre Homero e n\u00f3s, entre o passado m\u00edtico e o presente inquieto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ler a Odisseia hoje \u00e9 perceber que a viagem de Odisseu \u00e9 a nossa. Que todos temos monstros, tenta\u00e7\u00f5es, esquecimentos, naufr\u00e1gios. Que todos procuramos \u00cdtaca \u2014 n\u00e3o como destino, mas como reencontro. E que s\u00f3 chegamos l\u00e1 quando deixamos cair o que n\u00e3o somos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <em>Odisseia<\/em> \u00e9 uma obra de filosofia, de alquimia, de humanidade. E continua viva porque continua a acontecer dentro de n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Odisseia \u00e9 o poema do regresso, mas n\u00e3o apenas o regresso a uma casa f\u00edsica: \u00e9 o regresso ao centro do ser, ao lugar onde o homem finalmente se encontra consigo pr\u00f3prio depois de atravessar todas as sombras que o afastaram de si. 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