Crónica — O Rio Onde a Tragédia Respira

Paisagem épica e sombria com um rio dourado e brilhante a correr ao pôr do sol, ladeado por silhuetas de guerreiros antigos com lanças e ruinas clássicas envoltas em fumo

Há dias em que penso que vivemos todos dentro de uma nova Ilíada, mas sem Homero para nos avisar que a tragédia já começou.

É nesse silêncio que o mundo se move com a respiração febril de Aquiles, como se cada gesto fosse uma ferida a reclamar eternidade, como se a cólera tivesse tomado o lugar da alma e o orgulho fosse agora a única forma de não desaparecer. Caminhamos assim, inflamados por dentro, cegos por fora, arrastados por um rio que não escolhemos, mas que nos leva como se fôssemos apenas ecos de um herói cansado de si próprio.

A Ausência de Heitor

E nesse mesmo rio, quase submerso, há um rumor que lembra Heitor — não a figura, mas a ausência dela, uma ausência que pesa mais do que qualquer presença, como se a dignidade tivesse sido expulsa do tempo por ser demasiado inteira para sobreviver ao brilho fácil que governa os dias.

A coragem tornou‑se um anacronismo, o dever uma relíquia, e a humanidade uma palavra que já não sabemos pronunciar sem tremer.

O mundo esqueceu o silêncio que sustenta a grandeza, e por isso tudo soa oco, como um escudo rachado a fingir que ainda protege.

O Reflexo de Paris e o Brilho que Seduze

A beleza, essa promessa antiga, tenta erguer-se no murmúrio longínquo de Afrodite, mas o murmúrio dissolve-se na pressa, esmagado pela cintilação superficial que nos seduz como um reflexo de água turva.

Somos herdeiros de Paris, mesmo quando fingimos não o ser: escolhemos sempre o que brilha, mesmo sabendo que o brilho é apenas o verniz de uma ruína. E assim trocamos profundidade por reflexo, vínculo por desejo, eternidade por instante, como se estivéssemos condenados a repetir a mesma queda sem nunca aprender com o impacto.


A Guerra Íntima contra a Sombra

O rio segue, indiferente, levando consigo as cinzas de cidades que nunca defendemos e os fantasmas de heróis que já não reconhecemos. Há um cansaço que não vem do corpo, mas da alma — um cansaço que se entranha como poeira de guerra, como se carregássemos ruínas que não construímos e culpas que não sabemos nomear.

Talvez a verdadeira tragédia seja esta: não a guerra lá fora, mas a guerra íntima, a que travamos contra a sombra do que poderíamos ter sido.

A guerra de sermos demasiado ferida para sermos luz, demasiado reflexo para sermos rosto, demasiado ruído para escutarmos o que ainda poderia salvar-nos.

E no entanto, continuamos a caminhar dentro desta noite líquida, como quem procura uma margem que já não existe. Não por esperança — mas por medo de desaparecer. E é nesse medo que escolhemos sempre o brilho errado, como se a própria escuridão nos tivesse ensinado a confundir claridade com deslumbramento.

No fim, talvez sejamos apenas isto: um rio que corre sem saber para onde, carregando heróis que já não sabem o próprio nome.


Comments

  1. Elsie Rosa da Cunha

    Parabéns por este magnífico pensamento em forma de texto. Todos nós precisamos de refletir e refletir fundo nestes tempos turbulentos, bizantinos, que vivemos.
    Aguardo com alta expectativa e ansiedade por novos textos.

  2. Post
    Author
    Tânia Caetano

    Agradeço profundamente o comentário.
    Vivemos, de facto, tempos que exigem reflexão, aquela que nos obriga a parar, a pensar devagar e a olhar para o que está por baixo da superfície.
    É isso que procuro construir aqui: um espaço onde o pensamento possa respirar.
    Fico muito contente por saber que acompanha estes textos com expectativa.
    Continuarei a escrever com a mesma exigência e entrega.

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