Há quem diga que o mundo moderno é feito de movimento, mas eu vejo-o feito de argila. Molda-se ao sabor do vento, das opiniões do dia, das tendências que duram menos que um suspiro.
As pessoas parecem olhar-se ao espelho, mas o espelho está partido — e só conseguem ver fragmentos de si mesmas, pedaços desconexos que mudam conforme o que os outros dizem, conforme o que o algoritmo decide mostrar, conforme o que a solidão permite suportar.
A Figura Quase Mitológica
E é por isso que o Homem de Ouro se tornou uma figura quase mitológica. Não o homem perfeito, mas o homem fiel: fiel às suas virtudes, aos seus princípios, à sua essência imutável.
O homem que permanece inteiro enquanto o mundo se desfaz em versões descartáveis de si mesmo.
O homem que não troca a sua alma por aplausos, que não muda de rosto para caber no molde do momento, que não se curva às tempestades nem às pressões do ruído. O Homem de Ouro é raro — e talvez por isso seja tão necessário.
O Teatro da Identidade e o Novo Narciso
Vivemos numa época em que a identidade se tornou um teatro. As pessoas encenam felicidade, encenam sucesso, encenam profundidade. Publicam selfies com sorrisos que não sobrevivem ao fechar da câmara. Fazem vídeos a proclamar o quanto são felizes, mas quando o ecrã se apaga, volta a noite — uma noite vazia, sem conteúdo, sem verdade.
É como se estivéssemos todos a repetir o destino de Narciso, paralisados diante do reflexo na água, fascinados por uma imagem que não é real. Só que agora a água chama-se Redes Sociais.
E o reflexo é tão frágil que desaparece com um deslizar de dedo. O Homem de Ouro não se paralisa diante do reflexo. Ele sabe que o espelho mente. Sabe que a imagem é apenas superfície. Sabe que a essência não se fotografa.
Uma Sociedade Sem Centro
E é aqui que a sociedade moderna revela o seu perigo: ao contrário do Homem de Ouro, ela não tem centro. Não tem eixo. Não tem raiz. Muda de valores como quem muda de roupa.
- Hoje indigna-se com uma causa; amanhã esquece-a.
- Hoje proclama virtudes; amanhã vende-as ao melhor comprador.
- Hoje defende princípios; amanhã troca-os por validação.
É uma sociedade que vive em função do olhar dos outros — e que, por isso, nunca chega a ver-se verdadeiramente.
O Homem de Ouro, porém, permanece. Permanece quando o mundo exige que ele se dobre. Permanece quando o vento tenta moldá-lo. Permanece quando a noite cai e todos procuram esconder-se. Permanece porque a sua essência não depende do aplauso, nem da aprovação, nem da moda. Permanece porque sabe que a virtude não é um adereço — é uma estrutura.
A Última Forma de Resistência
E eu pergunto-me: quantos de nós ainda têm estrutura?
- Quantos de nós ainda resistem ao reflexo?
- Quantos de nós ainda conseguem viver sem se reinventar para agradar?
- Quantos de nós ainda conseguem ser fiéis ao que são, mesmo quando o mundo inteiro lhes diz para serem outra coisa?
O Homem de Ouro é o que deveríamos ser — e o que raramente conseguimos ser. Mas talvez seja por isso que esta figura importa: porque nos lembra que a integridade é a última forma de coragem. Que a essência é a última forma de resistência. Que a verdade é a última forma de liberdade.
E que, num mundo feito de argila, ser ouro é um ato de rebeldia.



Comments
“Há quem diga que o mundo moderno é feito de movimento, mas eu vejo-o feito de argila.”
Esta sua definição é muito interessante Tania.
Apetece-me desafiar quem a acompanha e segue neste seu interessantíssimo blog a entar em discussão, debate a partir desta frase, que no meu ponto de vista tem várias camadas de pensamento e reflexão.
O homem moderno está numa solidão profunda dentro de si mesmo. Tempos de movimentos argilosos.
“Vivemos tempos liquidos” como disse Zygmunt Bauman
Author
Querida Elsie,
agradeço profundamente o seu olhar sobre essa frase — “o mundo moderno é feito de argila”.
Ela nasceu da intuição de que o movimento contemporâneo, embora constante, é frágil: molda-se, desfaz-se, reconfigura-se, mas raramente se solidifica. A argila é matéria viva, mas também instável — e talvez o homem moderno viva exatamente nesse paradoxo entre a forma e a dissolução.
A sua leitura é belíssima: “tempos de movimentos argilosos” — há aí uma imagem perfeita da nossa condição líquida, como diria Bauman, mas também da nossa solidão interior.
Vivemos num tempo em que tudo se move, mas quase nada permanece.
A argila é o símbolo dessa maleabilidade que nos permite reinventar, mas também dessa fragilidade que nos impede de permanecer inteiros.
Aceito com entusiasmo o seu desafio ao debate — que esta frase se torne ponto de partida para uma reflexão coletiva sobre o que significa ser humano num tempo de formas que se desfazem.
Talvez o verdadeiro ouro, hoje, seja a capacidade de resistir à liquidez e manter alguma estrutura — mesmo que feita de barro.
Com gratidão e admiração,
Tânia