Há livros que não se leem: atravessam‑nos como uma noite que não passa. Os Cús de Judas é isso — não um retrato da guerra, mas um relato, o relato de um homem só, preso num lado da história, condenado a reviver uma noite que não termina e um amanhã que nunca chega.
Lobo Antunes não escreve sobre a guerra: escreve sobre o que a guerra faz ao tempo, ao corpo, à memória, ao silêncio.
O Livro que Não Tem Dia
Enquanto leio, percebo que este livro não tem dia. Há uma escuridão que se arrasta por cada frase, uma espécie de madrugada que falhou, um limbo onde o narrador continua preso mesmo depois de regressar. A guerra acabou, mas a noite não.
E é essa noite que ele tenta iluminar com palavras — palavras febris, irónicas, cansadas, palavras que parecem procurar uma saída que não existe.
O que me fere neste livro não é a violência, mas a lucidez. A forma como o narrador observa o mundo com uma clareza amarga, como se cada gesto humano fosse uma tentativa falhada de ser inteiro. Ele fala como quem tenta recuperar pedaços de si que ficaram espalhados num país que já não existe, como quem tenta reconstruir uma identidade que a noite desfez.
E eu, enquanto leio, sinto que também mudo de lentes: ora vejo o absurdo, ora vejo a culpa, ora vejo a ternura escondida nos escombros.
A Destruição do Futuro
Há uma pergunta que atravessa tudo: o que acontece ao homem quando o amanhã deixa de existir?
A guerra não destrói apenas corpos — destrói a ideia de futuro. O narrador vive num presente suspenso, num tempo que não avança, num escuro que não se dissolve.
E talvez seja por isso que fala como quem está sempre à beira de um desmoronamento: porque a noite da guerra não é apenas ausência de luz — é ausência de sentido.
A Raiva Como Sobrevivência
Mas há outra dimensão: a raiva. A raiva que ele transforma em ironia, em sarcasmo, em humor quase grotesco — como se a única forma de não ser engolido pela noite fosse rir dela.
E eu reconheço isso: a escrita como sobrevivência, como terapia, como forma de impedir que o fogo consuma tudo. Há páginas que parecem escritas com dentes cerrados, outras com um cansaço tão profundo que quase se ouve o silêncio a quebrar.
A Impossibilidade do Regresso
No fim, percebo que Os Cús de Judas não é só sobre a guerra colonial — é sobre a impossibilidade de regressar de uma noite demasiado longa. É sobre o que sobra quando o futuro se parte. É sobre o que tentamos esquecer e o que insiste em voltar. É sobre o homem que continua a caminhar dentro da escuridão mesmo depois de a guerra ter terminado.
E talvez seja por isso que este livro continua a arder: porque há noites que não passam, e há memórias que não sabem amanhecer.

